Domingo, Maio 27, 2012

Entrei num deserto numa noite de lua nova, para assistir a uma parada de estrelas e levei comigo pouco mais do que o azul dos teus olhos, para que o deserto não esmagasse com a sua grandeza a tua imensidão. E assim fui entrando deserto a dentro, com a areia a cobrir-me os pés como um véu que resguarda um rosto, que imaginamos sempre doce, como o cheiro da tua presença quando me abraças e dizes que sou o melhor do mundo, o mundo que ofereci-te, que um dia não pretendendo que agradeças por isso, fiques radiante que o tenha feito. Vai chegar o dia em que vais deparar-te com uma duna íngreme e outra e mais outra. O nosso pensamento tem que se projectar como se nesse mesmo instante, estivesse-mos no topo da duna a contemplar um horizonte que não acaba e que nos faz sentir desafiados a encontrar a porta de saída do deserto, mesmo que tenhamos entrado nele numa noite serena como o teu sono.

Domingo, Abril 01, 2012


Não existe batalha mais difícil do que nos mantermos firmes quando começamos a sentir a ausência de estímulos exteriores, o espaço que nos envolve começa a fazer parte de nós e o domínio das situações ocorre com a naturalidade de uma extensão do nosso corpo! Tudo em que o nosso olhar toca, já não nos desafia nem nos deixa apreensivos! Os neurotransmissores viajam dentro de nós num comboio onde não sai ou entra  qualquer orientação definida, como uma ave que ficou privada do campo magnético da Terra. Encosto a mão ao peito e oiço o meu coração em pleno fogo-fátuo, a fúria com que procura expulsar a apatia, faz-me recordar o estilhaçar do pára-brisas de um carro! Penso em retirar o meu elmo, em sinal de reflexão e porque não desistência?!?… de seguida e em obediência ás leis da minha determinação, oriundas de uma fonte muito profunda, olho para o presente como apenas sendo mais um dia, como quem assiste ás folhas a serem sopradas pelo vento. De cada vez que um Homem encosta um joelho ao chão, quando se ergue, vem mais convicto de quem é e do que pretende!

Domingo, Fevereiro 05, 2012


Apesar da chuva e da lama, conseguimos levantar poeira, ao correr por aquele cais fora à procura da carruagem que nos irá levar a uma nova vida… acordo com o sentimento de dever muito antes do compromisso do despertador e interrogo-me já dentro da carruagem, não aquela com que sonhei, mas a real a que me leva e trás todos os dias, se alguma vez saberei identificar a fronteira que separa este instinto em olhar para tudo como sendo um desafio, um obstáculo a ultrapassar, uma vitória a conquistar e o bom senso de viver com o limite que todos nós acusamos um dia!?! Começo apesar disso a reconhecer o cansaço como um novo inquilino das frustradas expectativas que o mundo nos suscita. A amargura de não ter gente à altura de promover a nossa militância bem como identificando as nossas competências, fazer de nós um motor de desenvolvimento, numa visão global do sistema e não um acessório para os seus protagonismos. A porta da carruagem abre e vejo entrar a corrente de ar fria da madrugada que faz enregelar estes demónios, que pese embora a sua existência, decido não lhes dar mais importância do que à missão para que me destaquei…

Sábado, Dezembro 31, 2011


Eu nunca tive fé!
A dada altura dei conta ser devoto ao Cosmos, como coisa que tudo já foi, como coisa que tudo é e tudo será. Acredito de uma forma absolutamente derradeira, que a Natureza tem o dom de se auto-regenerar e que o Homem tem um papel secundário na realidade que conhece! Hoje, a Humanidade vê-se a caminhar por uma estrada que construiu e que está enlaçada de um nevoeiro opaco, muito à imagem do espírito de uma grande maioria de nós. Os enredos das últimas décadas, aceleraram em muito esse movimento de auto-regeneração a que as sociedades estão a ser sujeitas! Os dias de hoje já não convidam ás guerras do passado, até porque já não existem generais… em contra partida a propaganda tem criado e alimentado fantasias nas mentes mais veneráveis, que a prazo vem confirmar a existência de estados irreversíveis de miséria material e espiritual. É minha vontade ser parte activa do pelotão que vai romper a multidão parada na estrada à espera que este nevoeiro se dissipe! Os desafios são como os bebés no berço, pouco se parecem com o Homem no qual se transformaram, contudo a minha determinação faz-me acreditar que iremos sair renovados desta sombria conjuntura que se instalou nas nossas vidas, mesmo que isso implique uma perca parcial do que temos hoje. O que me assusta não é perder capacidade material, mas antes olhar em volta e certificar-me que perdemos a capacidade de Amar. É o altruísmo de amar que nos tornas únicos no Cosmos. O Ano que espreita não será a confirmação da destruição de coisa nenhuma, mas pode ser o inicio de uma mudança de mentalidade, que as gerações vindouras nos agradeceram que tenhamos iniciado.

Domingo, Dezembro 04, 2011


Pouco passa das 5h30m. De modo a poder desfazer a barba que floresceu numa rua comprida nesta noite densa,  procuro acordar o espelho ainda abraçado ás torneiras da bacia que em murmúrios de morte, apela ao esquentador que aqueça a água que lhe percorre as entranhas. Lá fora num ramo de uma árvore sem nome, um pássaro desmemorizado, sorri em busca do sol, numa tarde que já desejava que fosse Primavera. Cá dentro, procuro compreender o tacto que ao percorrer o meu rosto inspecciona a possível presença de um pelo dissidente! Num acto puramente formatado, faço girar sobre mim, o cortinado do poliban e deixo-me ensopar… antes de dizer adeus, assisto ás tuas pestanas a descerem e a subirem devagar, próprio de quem ainda não despertou. É sublime a saudade que se gera dentro de nós, quando se ama. Tão distante do poder que sentimos quando se controla!?! Levo comigo o teu cheiro preso entre os dedos das mãos, no gesto que deixei para trás quando acariciei os teus cabelos, num estado de fúria de mar!

Quarta-feira, Outubro 05, 2011


Cheguei hoje, depois de alguns meses ausente. Andei por aí a ouvir o desabafo das lágrimas que caminham de Leste em direcção à Ibéria, como o vento que desce da montanha em direcção à planície! Enquanto outros já questionam o seu modelo de vida, por cá ainda se assiste a alguns luxos czaristas! Os Lusos sempre foram dotados de uma estranha é poderosa fé! Creio que estamos prestes a pôr a toda a prova esta capacidade de acreditar que o Cosmos olha sempre por nós!?! O deslumbramento que ganhamos e alimentamos ao longo das últimas décadas, desafiam o mais tolerante dos deuses, chegamos à fronteira do tempo onde a carência de gerar uma revolução no nosso pensamento colectivo está a expirar. As sociedades estão a implodir na consequência do abandono dos valores que faz do Homem um ser que se auto-sustenta. A esquizofrenia de que tudo o que sempre quisemos foi tudo, gerou uma reacção em cadeia que apesar das sucessivas tentativas, parece que ninguém está habilitado para a estancar! O som dos tambores chama para as fileiras de combate, gente altruísta e que não ceda à tentação do sétimo pecado capital.



Sábado, Junho 25, 2011


Numa viagem que necessita de pouco mais de 8 minutos, o Sol chega e cobre toda a minha superfície, provocando o efeito de uma brasa incandescente, que esmorece à medida que o dia se consome com o mar sempre a jorrar champagne salgado, sobre um plano inclinado de areia, que acolheu a minha presença, como se eu fosse uma concha sem bivalve. Atrás de mim e na vertical, as escarpas fazem deste lugar uma enseada preenchida de seres voadores, que ocasionalmente proporcionam eclipses solares quando se interpõem entre o sagrado e o profano. Resisto ao fascínio de assistir a toda esta interacção e mantenho-me de olhos fechados, por saber que a luz pode enlouquecer-me e tomo consciência de que para sentir falta de algo, não necessito da evasão da sua presença! Quando a noite caí, faz tempo que estou acordado, desafi-o o sono a não apagar da minha mente tudo o que fiz hoje, para amanhã ter presente o conforto deste lugar.